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    22 / jun
    Postado em Diversidade -
    por Denis

    Para dar início à minha carreira de colunista no Design Ad, gostaria de falar sobre sonho e trabalho, ações que podem andar de mãos dadas. Nadar contra a corrente pode ser um caminho e mudar a sua percepção pode ser um excelente primeiro passo.

    Alguns trabalhos mudam a nossa vida, isso é fato. Mas de todos os trabalhos que mudaram a minha vida, nenhum é meu. Atribuo o meu auto conhecimento a trabalhos alheios e ainda busco a minha obra-prima.
    Mas deixe-me apresentar-me e dizer o motivo de estar aqui. Sou Denis, e a história começa um pouco lá atrás, no primeiro trabalho que mudou a minha vida…

    Já fui muita coisa, comecei como ajudante de um grande marceneiro: meu pai. Mas com a chegada das “Marabras” da vida, nosso pequeno negócio fechou e tive que procurar um outro trabalho. É importante frisar que estamos falando de um garoto de 14 anos que mora na extrema periferia da cidade de São Paulo e sonha em ser desenhista de HQ.

    As HQs foram as primeiras obras que mudaram a minha vida. Criança solitária e introspectiva - características que carrego até hoje – as histórias em quadrinhos, junto com o rock, preencheram uma adolescência frustrante e claustrofóbica. Nas HQs aprendi as questões da ética, da coragem e as possibilidades que a criatividade humana pode gerar. No rock aprendi a apreciar e ter ousadia, de uma maneira bem do meu jeito, digamos. Claro que na época eu não sabia o significava a ética ou a ousadia, eu ainda acreditava em um mundo melhor, em pessoas incorruptíveis e sonhos impossíveis a se realizar.

    Minha solidão juvenil fez com que minha inocência infantil fosse poupada da malícia gerada pela testosterona e a busca do que eu não entendia sobre Deus e fé fez com que eu me protegesse da busca e satisfação do desejo imediato, nutrisse a humildade e valorizasse a diversidade. Se esta base hoje não me tornou um líder, também não me tornou um predador, mas um verdadeiro homem.

    Porém, se eu tivesse essa mentalidade aos 16, não cometeria os erros – os mesmos erros que moldaram o homem que não separa o trabalho da arte, o dom da profissão, o dever e o fazer que me compõem hoje.
    É cômico notar como as pessoas fazem de suas fraquezas, motivos para chorar e desistir. Transformei minhas fraquezas em qualidades e meu sofrimento em vantagem. Nascer em um subúrbio me destinaria a ser uma pessoa começando o jogo com um saldo negativo de pontos. Ser pai na adolescência dobraria negativamente estes pontos e conseguir um emprego de porteiro cerraria meu destino.

    Nunca escrevi sobre este assunto, mas sempre acreditei no meu potencial, mesmo nas longas e frias madrugadas dentro de uma portaria de edifício residencial, onde os moradores, por não saber meu nome, chamavam-me de Zé; ou nas tardes quentes de domingo, quando os pais brincavam no jardim com seus filhos e eu chorava escondido sob o vidro fumê da portaria, sentindo falta da minha filha e me submetendo a um salário insignificante. Chorei não apenas por pena de mim naquele momento, chorei não apenas porque cheguei a pensar que aquela seria minha vida para sempre. Chorei pois compreendi a insignificância da ilusão social que separa as pessoas, gera guerras, gela corações, destroem sonhos e humilham o espírito.

    Não tiro o mérito de ninguém que estudou e ralou muito para chegar ao topo, mas nada dá o direito a ninguém de humilhar outro ser humano por causa de sua classe social, cor, aparência ou profissão. Coisa que presenciei e senti na pele incontáveis vezes.

    Posso te garantir, caro leitor, que conheci muita gente extremamente interessante quando trabalhei como porteiro. Copeiras, motoristas, porteiros, faxineiras… gente subestimada e ignorada da sociedade. Pessoas que não possuem medo algum de pegar no batente, não são burras, mal educadas ou ignorantes, muito pelo contrário, a maioria delas possuem talento, conhecimento, cultura, experiência, inteligência e bondade – não obstante, muita bondade para agüentar a ignorância daqueles que estudaram em bons colégios, tiveram apoio total dos pais e são os tidos civilizados de nossa sociedade, mas que parecem cães e porcos no tratamento ao semelhante que não consideram semelhante.

    Essa foi minha vida por dois anos: portaria, maus tratos e bons amigos. Momento que me traz muito orgulho hoje, pois vejo que não foi uma experiência profissional, foi uma experiência humana pela qual eu deveria passar e que construiu o alicerce para minha profissão hoje – jornalista – com aquilo o que todo mundo nessa área procura: diferencial.

    Não amigos, eu não me formei na melhor universidade dessa vida – aliás, fiz sim, a própria vida. Eu era jornalista muito antes de conquistar o diploma. Jornalista é não somente aquele profissional que informa, mas o arqueólogo contemporâneo que descobre sua era, o historiador que conta o presente, o narrador que descreve e compreende seu tempo e seu povo. Esse sou eu: o ex-porteiro que abriu a porta mais importante para si mesmo: a ousadia.

    Ousar é saber utilizar os objetos ao seu redor de forma subversiva e inesperada para conquistar o objetivo. Minhas ferramentas foram a minha visão suburbana da vida e das pessoas, o meu deslumbramento com o divino e o profano, minha experiência foi com as pessoas, sempre. Minha escola foi a dor, minha escada foi a história em quadrinhos - que me ensinou a ler e a escrever; e o rock - que me ensinou o sentimento e a ousadia.

    Hoje tenho orgulho pelo que passei e curiosidade pelo que vou passar, sei que ainda tenho muitas quedas pela frente, mas também muitas coisa a conquistar. Sei que serão poucos que vão ler este texto até este ponto, mas se você chegou aqui, obrigado. Vou continuar, no Design Ad e no Bravus, pela minha busca: inspiração, arte, trabalho e realização.

    Bons Sonhos.

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    A inclusão deste post foi feita em 22 de junho de 2008, domingo, às 23:37 e arquivado em Diversidade. Você pode acompanhar os comentários através do nosso RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou apontar este link no seu próprio site.

    5 comentários, o bicho está pegando :) to “Mais um designado…”

    1. Thomas :

      Caramba Dênis… até arrepiou esse texto. É isso ai cara, a melhor escolha que existe é a escola da vida. Tomando porrada é que a gente aprende a trilhar o melhor curso.
      Valeu !
      Abraço !

    2. Adriana :

      Denis,
      Obrigada. Acabo de conhecer mais um pouquinho da sua história. Cada vez que leio um texto seu, mais tenho a certeza de que Eu estava certa, você tem um grande talento. Você realmente escreve com o coração. Seus textos tem magia. Caro amigo continue assim…….você vai longe!!!!Meus parabéns!!!

    3. John Sarmento :

      Pô cara, que bonito isso td!

      Todos temos histórias para contar, mas nem todos sabemos contá-las bem.

      Parabéns!

    4. Rodrigo :

      E onde entra o Bravus nessa história? Ele mudou minha vida e com certeza mudou a sua… E é trabalho nosso!

    5. Thomas :

      Aprende a ler Rodrigo, leia o último parágrafo denovo! seu cegueta.

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